Aurora. A luz da alvorada tarda a chegar, enquanto o brilho do sol poente já se dissipou em trevas. Na cidade envolta por uma névoa tênue, igrejas ocultas nas sombras, veias que serpenteiam nas fendas das paredes, sons de roedura vindos dos esgotos, sombras sussurrantes que murmuram baixinho... Entre eles, caminha lentamente o Portador da Lanterna.
13 de março de 1938.
Reino de Windsor, cidade de Londan.
O inverno que estava prestes a partir não trazia muita esperança de calor para esta cidade. As pessoas caminhavam apressadas pelas ruas, ainda sentindo o peso da Grande Depressão, enquanto as nuvens da guerra podiam se abater a qualquer momento. Não era uma cidade feliz.
Lado leste de Londan, rua Berrick, Agência de Detetives Wayne.
Uma casa de dois andares e meio, com porão e de frente para a rua, era quase um milagre de felicidade para os padrões nada abastados do leste da cidade.
Mas essa era a felicidade do proprietário, não de Wayne. Se não pagasse logo o aluguel, só lhe restaria se alegrar nos esgotos.
No escritório do primeiro andar, Wayne sorria para o cliente enquanto, sobre a mesa, repousavam dois relatórios de investigação.
— Doutor Lainer, quanto aos seus dois pedidos, tenho uma boa notícia e uma má. Qual prefere ouvir primeiro?
— Tenho tido tanto azar ultimamente, melhor começar pela boa — respondeu Lainer, dando de ombros. Era um típico “cebolinha” de meia-idade, que o tempo ceifara sem piedade: levou-lhe os cabelos para os jovens, deixou-lhe a oleosidade que ninguém queria. Como médico, nem barba podia deixar para protestar.
— A boa notícia é que o carro usado que você queria realmente sofreu um acidente. Com este relatório, pode barganhar no preço.
Wayne lhe entregou o primeiro dossiê: após análise, foi detectado um anel de alma de quarenta anos; não se recomenda dirigir à noite, pois o antigo dono gostava de disputar o volante.
— Iss